Como fazer a redação · Guia de consulta
Argumentação na redação do Encceja: como explicar e defender uma ideia
Não basta afirmar sua opinião: explique por que ela faz sentido.
O principal, em poucas palavras
- Não basta afirmar sua opinião: explique por que ela faz sentido.
- Ligue a ideia a uma causa, consequência ou exemplo pertinente.
- Você pode argumentar sem inventar pesquisas, porcentagens ou citações.
Argumentar é mostrar por que sua posição faz sentido. Na redação do Encceja, escrever “isso é importante” várias vezes não explica o problema. Um argumento ganha força quando apresenta uma razão, mostra como ela funciona e a relaciona com a ideia defendida. Você pode fazer isso com palavras simples, sem inventar números ou decorar frases de autores.
Pense em uma conversa em que alguém pergunta: “Por que você diz isso?” A resposta precisa ir além de repetir a opinião inicial. Se sua posição é que uma escola pode reduzir desperdício de alimentos com planejamento e orientação, será necessário explicar quais falhas geram sobras e como essas medidas podem ajudar.
Vamos usar esse tema fictício de treino: caminhos para reduzir o desperdício de alimentos em uma escola imaginária. Ele serve apenas para estudar escrita. Não é previsão de tema, relato de uma instituição real nem redação oficialmente corrigida. Para a organização completa do texto, consulte como fazer a redação do Encceja.
Diferencie assunto, opinião e argumento
“Desperdício de alimentos” é o assunto. “É preciso reduzir esse desperdício” é uma posição. “Planejar o preparo de acordo com a presença dos estudantes pode diminuir sobras de refeições” é uma razão que começa a sustentar essa posição.
Ainda falta explicar o funcionamento. Se a quantidade preparada permanece igual mesmo quando muitos alunos faltam, parte da comida pode não ser consumida. Acompanhar a presença e ajustar o planejamento ajuda a evitar uma diferença muito grande entre o que se prepara e o que se utiliza. Essa explicação faz o argumento avançar.
Veja o antes e o depois:
Antes: “O desperdício é ruim, porque joga comida fora e isso é um grande problema para a sociedade.”
Depois: “Quando a quantidade de refeições é planejada sem considerar a presença dos alunos, podem ser preparadas porções que não serão servidas. Acompanhar essa demanda permite ajustar o preparo e reduzir sobras, respeitando as orientações de segurança alimentar.”
A segunda versão identifica uma condição, uma consequência e uma direção de resposta. Não afirma que essa é a única causa de desperdício. Também não sugere reutilizar qualquer sobra de qualquer maneira, pois reduzir perdas não autoriza colocar a saúde em risco.
Use a pergunta “como isso acontece?”
Essa pergunta impede que o desenvolvimento vire uma lista de palavras abstratas. “Falta conscientização” pode significar muita coisa. O aluno desconhece o impacto das sobras? Recebe uma porção maior do que consegue comer? Pode pedir uma porção menor? Os horários e o modo de servir permitem escolher com calma?
No exercício, você pode escolher uma situação e explicá-la: “Se todos recebem a mesma quantidade, uma criança com menor apetite pode deixar alimento no prato. Oferecer porções iniciais adequadas, com possibilidade de repetir conforme a organização da escola, pode reduzir essa sobra.” O argumento fica compreensível porque o leitor acompanha a ação e seu efeito possível.
Não é necessário responder a todas essas perguntas no mesmo parágrafo. Escolha a relação que ajuda sua posição e desenvolva até ficar clara. Acrescentar muitas causas sem explicar nenhuma produz um texto cheio de assuntos e pobre em raciocínio.
Um parágrafo desenvolvido tem uma tarefa
Uma organização possível é apresentar a razão, explicar seu mecanismo, trazer um exemplo e mostrar o que ele demonstra. Não é uma fórmula obrigatória nem uma quantidade fixa de frases. É uma forma de verificar se o leitor recebeu as peças de que precisa.
Observe um parágrafo completo para o tema fictício:
“O modo de servir as refeições também pode contribuir para o desperdício. Se a porção é definida sem considerar o apetite de quem vai comer, parte dos alimentos pode permanecer no prato. Em uma situação hipotética, um estudante que já se alimentou antes de chegar à escola pode precisar de uma quantidade menor naquele momento. Permitir ajustes na porção, sem impedir o acesso de quem precisa comer mais, ajuda a aproximar o que é servido do que será consumido.”
A tarefa desse parágrafo é discutir o tamanho das porções. Ele não precisa explicar também a compra de ingredientes, o transporte e o armazenamento. Esses assuntos poderiam ser pertinentes em outro plano, mas incluí-los sem desenvolvimento quebraria o foco.
Exemplos ajudam a explicar, mas não provam tudo
Um exemplo inventado pode ilustrar uma relação. Ele deve aparecer como hipótese: “imagine”, “em uma situação possível”, “se acontecer”. Não apresente uma escola imaginária como caso documentado e não invente nome de pesquisa para dar aparência de comprovação.
Mesmo um caso verdadeiro tem limites. Uma experiência de sua família pode mostrar como alguém lida com sobras, mas não permite afirmar que todas as famílias do país agem da mesma maneira. Para sair do caso particular e chegar à ideia geral, explique qual relação ele ajuda a entender e mantenha a afirmação dentro desse alcance.
Compare:
Exagero: “Minha vizinha desperdiça comida, então os brasileiros não se importam com a alimentação.”
Argumento mais cuidadoso: “Comprar alimentos sem verificar o que já existe em casa pode levar à perda de produtos que vencem antes do consumo. Organizar a compra conforme a necessidade ajuda a evitar esse tipo de desperdício.”
A segunda versão dispensa uma acusação nacional. Descreve uma condição que o leitor consegue compreender e relaciona uma medida ao problema apresentado.
Não invente dados para parecer convincente
Uma porcentagem precisa de origem. Não escreva “segundo pesquisas, quase todas as escolas desperdiçam metade da comida” se você não recebeu ou não conhece uma fonte confiável para essa afirmação. O detalhe inventado não corrige um raciocínio fraco; acrescenta um problema de informação.
Quando a proposta trouxer um dado, leia a que ele se refere. Foi medido em uma cidade, em um grupo de escolas ou no país inteiro? Trata de comida preparada, alimento comprado ou sobra no prato? Essas medidas não são equivalentes. Use o dado conforme o alcance apresentado e explique por que ele importa para seu argumento.
Você também pode escrever um bom parágrafo sem estatísticas. Relações de causa e consequência, comparações pertinentes e situações hipotéticas bem identificadas permitem desenvolver o tema. O mais importante é não usar certeza maior do que a explicação sustenta. O estudo de interpretação de texto ajuda a ler os limites de informações e gráficos.
Dois argumentos precisam acrescentar algo
Se um parágrafo diz que “falta orientação” e o seguinte afirma que “não há informação suficiente”, talvez os dois façam a mesma tarefa. Trocar o vocabulário não cria uma segunda razão. Verifique o que cada parte acrescenta à defesa de sua posição.
No tema da escola imaginária, uma divisão possível seria discutir planejamento da quantidade preparada em um parágrafo e adequação das porções em outro. O primeiro trata do que acontece antes de servir. O segundo, do momento de consumo. Eles se relacionam, mas explicam etapas diferentes do problema.
Outra escolha seria tratar de informação e condições práticas: explicar por que conversar sobre desperdício pode ajudar e por que a conversa precisa ser acompanhada de mudanças no modo de servir. Essa combinação evita responsabilizar o estudante por uma sobra que ele não teve oportunidade de prevenir.
Reconheça uma dificuldade sem abandonar sua posição
Um argumento não precisa fingir que a solução é fácil. Se você propõe acompanhar a demanda, pode reconhecer que a presença muda e não será prevista com exatidão. Isso não torna inútil o planejamento. Mostra a necessidade de ajustes e de uma margem adequada à realidade da escola.
Veja uma formulação possível:
“A quantidade de estudantes presentes pode variar de um dia para outro, por isso o planejamento não elimina toda sobra. Ainda assim, observar a frequência e registrar perdas recorrentes permite corrigir excessos que se repetem.”
O trecho considera uma objeção e explica por que a proposta continua útil dentro de um limite. Essa é uma forma de aprofundar a discussão. Não é preciso inserir uma objeção artificial em todo texto; use esse recurso quando ele ajuda a esclarecer um ponto realmente difícil.
Faça o argumento chegar à conclusão
Se o desenvolvimento mostra problemas no planejamento e nas porções, o fechamento deve conversar com esses dois pontos. Concluir apenas que “todos precisam ter mais amor pelo planeta” não responde às condições que você acabou de explicar.
A ligação pode ser concreta: a gestão da escola acompanha a demanda e organiza o preparo com a equipe responsável; a forma de servir permite ajustar porções sem restringir a alimentação. O texto pode apontar o efeito esperado, como diminuir sobras evitáveis, sem prometer eliminar toda perda. O artigo sobre conclusão da redação mostra como construir esse fechamento.
Para unir os parágrafos, não basta adicionar “além disso”. A relação precisa existir nas ideias. Veja também coesão na redação para trabalhar as ligações sem repetir palavras ou criar confusão.
Um exercício de desenvolvimento em três tentativas
Escreva uma frase defendendo uma ideia sobre outro tema fictício, como dificuldades de deslocamento até uma biblioteca. Acrescente uma explicação começando mentalmente por “isso acontece quando”. Depois, inclua uma consequência e verifique se ela realmente decorre da condição apresentada.
Na segunda tentativa, retire qualquer palavra vaga: “coisas”, “problemas”, “situação ruim”. Substitua pelo obstáculo concreto. Na terceira, corte uma frase e veja se o argumento continua inteiro. Se a frase apenas repetia o que já estava explicado, o corte pode melhorar o texto. Se faltou uma etapa do raciocínio, reponha a informação com mais clareza.
Esse exercício cabe em períodos curtos e pode ser combinado com a rotina de estudo para quem trabalha. Depois, aplique o que aprendeu em um texto completo. Um parágrafo isolado ensina desenvolvimento; a redação inteira ensina a manter uma posição do começo ao fim.
Fontes e referências
Os exemplos e exercícios são próprios. Para acompanhar as orientações de redação do seu nível de ensino, utilize as cartilhas disponibilizadas pelo Inep, sem substituir a leitura do material oficial por um modelo de parágrafo.
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